24 de junho de 2026

A Fogueira de São João


       Aos meus Pais João e Benedicta “In Memoriam”

      “A Fogueira de São João”


Meu pai, por se chamar João, não deixava passar o dia 24 de junho sem acender uma fogueira em homenagem a São João,
um costume trazido do interior de São Paulo para a Capital como se tivesse colocado na mala um pedaço da terra que não poderia ficar pra trás.

Eu e meu irmão Euribes, éramos dois meninos quando entramos para o ritual. O ano da gente começava em março. Não no calendário, mas na primeira lenha. Cada galho seco encontrado na rua era um tijolo da nossa catedral de fogo. Carregávamos, empilhávamos, calculávamos. A fogueira tinha que durar horas. Tinha que ser a maior.

Nós não sabíamos, mas ali aprendíamos sobre tempo. Sobre esperar. Sobre construir.

Depois vinham os outros preparativos. Meu pai escolhia os fogos. Minha mãe comandava a alquimia do quentão, do anizete (licor alcoólico à base de anis), estourava a pipoca, cozinhava o pinhão... A casa entrava em estado de festa semanas antes. E não havia outra igual. Nas redondezas, todos sabiam: se é São João na casa do seu João, é pra valer.

A divisão era clara, sagrada. Eu e meu irmão éramos os arquitetos da fogueira. Pai, o mestre dos fogos. Mãe, a guardiã dos sabores. E tudo funcionava. Porque festa boa é projeto bem executado.

No ar uma mistura de aromas, sensações e sons característicos de uma festa junina: O calor da fogueira, o cheiro da fumaça, da pipoca, do quentão com gengibre, a lenha estalando...

A cada rojão, um grito de “viva” carregado de uma emoção tão pura que parecia transbordar do peito do meu pai. Era uma felicidade ímpar. Aquele grito não era só barulho, era o eco de uma gratidão profunda por estar vivo, por celebrar o seu nome, o santo padroeiro do dia, e por ver a família e os amigos reunidos.

Na manhã seguinte, o último gesto do meu pai antes de sair para o trabalho, às cinco, era um ato de amor silencioso: enterrava batatas doces nas cinzas ainda vivas. Quando acordávamos para a escola, corríamos desenterrar o café da manhã. Quentes, defumadas, doces. Era o beijo que ele deixava pra gente.

À tarde, ele voltava (minha mãe já estava no trabalho, trabalhavam na mesma empresa em turnos diferentes), e a última parte do ritual começava: recolher cinza por cinza, varrer a rua toda. A festa só terminava quando não sobrava rastro. Outro ensinamento que não precisava de palavra. Um aprendizado que não exigia discurso, a aula era o exemplo.

1961 foi o último ano. Meu irmão casou no seguinte. Eu, com 16, comecei um novo trabalho (estava iniciando na carreira de Mágico), e me ocupei com outras tarefas.  A fogueira se apagou no calendário, mas nunca em nós.

Hoje, raras são as vezes que eu e meu irmão nos encontramos e não voltamos para aquelas noites de junho. Os amigos e parentes que passaram por lá também não esquecem. Recentemente, revirando o baú dessas recordações em conversas com minhas primas Sonia e Hideli, percebi o quanto aquelas chamas ainda ardem em nós. Foram essas lembranças partilhadas que me inspiraram a colocar essa história no papel.

O que os nossos Pais nos deram não foi só uma festa, uma fogueira, foi um manual sobre planejamento, organização e execução. Sobre fazer junto. Sobre começar em março para celebrar em junho. Sobre deixar a rua mais limpa do que encontramos.

Essas lições não viraram cinza. Viraram chão pra gente pisar. Viraram herança.

Viva São João!

OZcar Zancopé  

15/03/1951 - Ozcar e Euribes



17/10/1946 - Benedicta, João, Ozcar e Euribes


Um comentário:

  1. Bom dia Oscar, ontem pensei em ligar para você como faço todos os anos
    Para relembrar esse dia !
    24/6, estamos com idade avançada mas continua

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